ESSAY · 2026-07-10

O que é o jogo? — Começando pelo círculo mágico de Huizinga

Nova série "A natureza do jogo", parte 1. Perguntando aos filósofos o que é, afinal, a diversão

Introdução — Levando a sério uma grade branca

Numa noite, olhando para um tabuleiro de sudoku, parei de repente. É só uma grade de 9×9. Linhas de tinta impressas. Mas no momento em que você entra dentro dessas linhas, fica sério — sério a ponto de perder sua estação. Eu uso esse fenômeno todos os dias para criar puzzles, e ainda não consigo explicá-lo direito. O que é o jogo? O que é a diversão?

Por isso decidi começar uma nova série: "A natureza do jogo". Eu, que faço puzzles, vou levar essa pergunta a filósofos de verdade. Fique tranquilo: nada de teoria pesada (sinceramente, eu nem saberia). A cada episódio, trago uma ideia para casa e verifico só uma coisa: ela serve para o design de amanhã? Parte 1: o fundador de todo esse campo, Johan Huizinga.

O jogo é mais antigo que a cultura

Johan Huizinga foi um historiador holandês (1872-1945). Seu livro de 1938, Homo Ludens, ainda aparece na primeira página de qualquer bibliografia de estudos de jogos. O título significa "o homem que joga" — uma declaração de que a essência humana não é pensar (homo sapiens) nem fabricar (homo faber), mas jogar.

Sua tese mais radical é esta: o jogo não nasceu da cultura. A cultura é que nasceu do jogo. Os debates do tribunal, a métrica poética, as Olimpíadas — rastreie a origem, diz ele, e você encontrará formas de jogo. Como filhotes brincando de briga, o jogo nem sequer é invenção humana; ele precede a própria cultura. A noção comum de que o jogo é "sobra de tempo para matar" foi virada de cabeça para baixo por esse homem há mais de oitenta anos. E, uma vez dito, você percebe: um julgamento e um puzzle são estranhamente parecidos. Há regras, há desfecho, e nenhuma força de fora da linha pode entrar.

O círculo mágico — uma seriedade que só existe dentro da linha

Segundo Huizinga, o jogo acontece em "um tempo e um lugar dedicados, separados da vida cotidiana". A arena, a mesa de jogo, o altar — e o tabuleiro de xadrez. Ele chamou esses terrenos de jogo de círculo mágico (magic circle). Sim, é daí que vem o termo favorito do game design.

Dentro do círculo, outro conjunto de regras torna-se absoluto. Um peão só captura na diagonal sobre um tabuleiro de xadrez. Um ato sem sentido fora do círculo torna-se, dentro dele, questão de vida ou morte. O inverso também vale: status e fortuna de fora perdem o poder lá dentro. Presidente ou novato, de cada lado do tabuleiro, ambos comandam as mesmas peças.

E aqui está o essencial: o círculo não precisa ser uma linha física. Um único sinal — "vamos começar?" — já o desenha dentro da cabeça. Essa é a resposta ao meu sudoku do início. Aquela moldura de 9×9 não é decoração; é uma barreira ritual. No instante em que vemos as linhas de tinta, entramos no círculo por vontade própria.

O réveillon de Animal Crossing, a borda da grade de sudoku

Esse conceito fica nítido quando aplicado aos jogos modernos. O réveillon de Animal Crossing: New Horizons. O relógio do jogo é sincronizado com o real, e às 23h59 começa uma contagem regressiva na praça da ilha. Naquela noite, muita gente estava ao mesmo tempo com a família real e na praça do jogo. O instante em que a praça da tela se sustentou como "outro lugar de verdade". Um círculo mágico pode ser traçado desse tamanho.

Ele também pode ser traçado sobre uma mesa. Numa sessão de RPG de mesa, o mestre diz: "Então, vamos começar". Com essa única frase, a mesa cheia de pacotes de salgadinho vira uma taverna. Todos sabem disso — e, sabendo, estão seriamente naquela taverna. Huizinga chamou esse estado de a seriedade do jogo. Ninguém está de bobeira. O jogo só funciona se levado a sério.

E então, os puzzles. A moldura externa dos nossos tabuleiros — aquela única linha — provavelmente é uma peça bem mais importante do que eu imaginava. Só os números dentro da linha têm significado; nada do mundo lá fora (prazos, notificações não lidas) pode entrar. A moldura que o criador desenha não é enfeite: é a fronteira de um círculo mágico. Olhe para o seu próprio tabuleiro com essa ideia, e até as margens ganham outro sentido.

Uma objeção — o círculo está mesmo fechado?

Mas esse belo círculo recebe objeções desde o início. Primeiro, Roger Caillois, que herdou criticamente o projeto de Huizinga (ele aparecerá em breve nesta série). Do ponto de vista dele, a definição de jogo de Huizinga é estreita demais. Huizinga sustentava que o jogo é "alheio a qualquer interesse material" — mas isso expulsa a aposta do jogo. A roleta do cassino está ligada direto à carteira do dia a dia e, ainda assim, é inegavelmente jogo. A parede do círculo é mais fina do que ele dizia.

De Bernard Suits (outro futuro protagonista desta série) viria uma réplica mais radical: não seria o jogo decidido pela atitude, e não pelo lugar? Dentro do círculo, um golfe de negócios cumprido por obrigação mal merece o nome de jogo. E o inverso: num trem lotado, se a sua cabeça está girando um tabuleiro, você está dentro do jogo. Talvez o círculo grude na pessoa, não no chão.

Anúncios em apps gratuitos, pagamentos de gacha, premiações de esports. Nos jogos modernos, a parede do círculo fica cada vez mais fácil de romper. Até onde vai o jogo, e onde começa o cotidiano? Por ora, minha posição é que o círculo não é um lugar, mas um acordo. O que importa não é onde a linha está, e sim que todos concordem em viver por outras regras dentro dela. Então não vou forçar uma resposta barata aqui: transformo isso no dever de casa permanente desta série inteira.

Para levar — antes da diversão, desenhe a fronteira

A lição deste episódio cabe numa linha: antes de projetar a diversão, projete o sinal que diz "o jogo começa aqui". A tela de título, a moldura do tabuleiro, a animação de abertura, aquela respirada antes de começar. Nada disso é decoração — é o ritual que traça o círculo mágico. Um puzzle com o círculo mal traçado perde para o cotidiano, por melhores que sejam suas regras.

Através de um copo de uísque, olho de novo para os tabuleiros do meu próprio site. A espessura da moldura, as margens da grade, a pausa entre apertar "começar" e o primeiro movimento. Achei três coisas que quero consertar. Vão para o caderno de esboços. Por hoje é só.

Uma última pergunta para você. Quando você começa um jogo, em que momento sente que entrou no círculo? Quando a tela de carregamento some? No primeiro movimento? Ou antes de jogar, no instante em que toca o ícone? Conte nos comentários. Na próxima, no formato curto: "Se você olhou a solução, pode dizer que resolveu?" Dois filósofos vão aparecer — com respostas diferentes.

Referências: Johan Huizinga, Homo Ludens (Perspectiva); Roger Caillois, Os jogos e os homens (Cotovia).

Johan Huizinga, Homo Ludens (ed. japonesa, Chūkō Bunko)Johan Huizinga, Homo Ludens (ed. japonesa, Chūkō Bunko)Roger Caillois, Os jogos e os homens (ed. japonesa, Kōdansha)Roger Caillois, Os jogos e os homens (ed. japonesa, Kōdansha)As capas são links de afiliado da Amazon. Como Associado da Amazon, o Puzzlebyrinth ganha com compras qualificadas.

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